Histórico do Projeto
Ser professor de língua portuguesa e lecionar como escrever, não é uma tarefa das mais fáceis... Muitas vezes, pedir para que o aluno redija um texto, torna-se um ato meramente obrigatório, apenas para se cumprir um exercício da disciplina a qual o professor ministra.
Corrigir tais redações, conseqüentemente, é uma das atividades mais enfadonhas, caso não se tenha um escopo para essa produção. Apontar erro por apontar, não faz muito sentido, pois grande parte dos alunos ao receber a correção feita pelo professor, não avalia o seu próprio trabalho, não observa com atenção o trabalho de correção feito pelo professor, mas sim, quer ver apenas a nota, muitos recebem o instrumento de avaliação e jogam-no fora; o professor ao vir tal cena, pensa consigo mesmo: “meu trabalho de fim-de-semana também foi para o lixo”.
Trabalhar com o desenvolvimento da escrita, do transformar o pensamento em palavra, é, ao mesmo tempo, uma tarefa que exige concentração e dedicação. Daí, surge a questão: “Como ensinar a redigir com adolescentes e jovens que são tão inquietos, agitados e que são dispersos por natureza?”
Tais reflexões são fruto de uma experiência com a produção textual, que nem sempre satisfazia aos alunos e ao professor.
Os alunos muitas vezes precisam de muito estímulo com relação ao trabalho com a leitura e a escrita, haja vista que nas composições observamos erros considerados absurdos, pensamentos completamente contraditórios, análises totalmente inexpressivas, uma produção que avaliamos como ruim.
Enfim, ensinar redação para os adolescentes e jovens era um verdadeiro tormento para mim, pois sempre tentava uma maneira de atraí-los para a atividade, porém nem sempre obtinha sucesso com aquela prática adotada.
Vale lembrar que essa angústia percorria meus pensamentos tanto no meu trabalho na escola pública, quanto na rede particular de ensino. Mas, graças ao contraste de realidades ao trabalhar com escolas com situações totalmente díspares, pude aprender com cada uma delas e, assim, aperfeiçoar um mecanismo de trabalho com as redações, com o qual venho aprendendo e ensinando muito.
Porém, a iniciativa de se implantar tal projeto surgiu, na verdade, após o término da correção das redações do Saresp 2003 (Sistema de Avaliação de Rendimento do Estado de São Paulo) das turmas de Ensino Médio do período noturno da E.E. Profª Ruth Cabral Troncarelli.
Fiquei indignado e estarrecido ao ler em muitas redações a seguinte mensagem: “Não sei fazer redação”. Folhas completamente em branco, alunos que nem sequer conseguiam expressar a sua visão mínima sobre o tema apresentado na dissertação.
Quando escreviam, a sensação de quem corrigia era de horror, frente a um texto produzido com idéias desconexas e tantos erros gramaticais cometidos por um aluno de Ensino Médio.
Lembro-me bem que expus a minha decepção à vice-diretora e ao coordenador pedagógico. Comprometi-me também, que no ano seguinte, iria mudar completamente a minha prática em sala de aula, pois se era preciso o aluno mudar, melhorar o seu texto, cabia a mim, enquanto professor, transformar a minha prática docente para atingir com mais a eficácia o trabalho com as redações.
As notas do Saresp 2003 – Ensino Médio – período noturno comprovam a minha preocupação. Observe:
| Série | Notas | Idade |
|---|---|---|
| Série | Notas | Idade |
| 1º Ano | 3,1 | 15 anos |
| 2º Ano | 3,9 | 17 anos |
| 3º Ano | 3,6 | 17 anos |
Ao se constatar que a nota máxima é 10, e que tais médias não chegaram a alcançar nem a metade desse total, significa que o texto produzido pelos alunos não apresenta habilidades e competências mínimas exigidas quanto à produção textual, que um aluno de Ensino Médio já deveria dominar.
A situação mostra-se preocupante, pois saber ler e escrever é uma questão de cidadania, de inclusão desta população jovem na sociedade em que vivem. A escola precisa capacitar seus alunos para enfrentar os desafios de se viver num contexto social em que a informação e a formação exercem um papel cada vez mais preponderante.
Foi dessa necessidade de querer mudar a situação apresentada pelos números do SARESP que surgiu o projeto de redação.
O nome do projeto
Lembro-me de um certo dia, em que me deparei com a frase cartesiana “Cogito ergo suum” (Penso, logo existo), em que o filósofo René Descartes através de um pensamento sintético apresentou sua maneira ímpar de encarar a existência humana.
Buscava um nome para o projeto que fosse breve, e , ao mesmo tempo, sintetizasse com tal força, elementos importantíssimos no trabalho com a produção textual: a reflexão e a exposição desse pensamento através da palavra. Daí, então, aceitei a sugestão dada pelo mestre francês e intitulei o projeto: “Penso, logo escrevo” ou em Latim: “Cogito ergo scribo”.
Onde o projeto surgiu?
O projeto de redação está sendo aplicado no Ensino Médio do período noturno da E.E. Profª Ruth Cabral Troncarelli no bairro de Itaquera, zona leste da capital paulista, exatamente no Conjunto Habitacional José Bonifácio.
A escola “Ruth Cabral” , como é conhecida no bairro, foi inaugurada há mais de 20 anos exercendo um papel importante para gerações de jovens e adultos que nela estudaram nessas duas décadas de sua existência.
Ao longo de sua história, o colégio “Ruth Cabral” passou por uma série de modificações tanto em suas instalações físicas quanto na coordenação e direção escolar. Hoje, após o surgimento dos últimos concursos públicos, mais de 70% do corpo docente é efetivo, a escola possui 50 professores efetivos e 20 professores contratados em caráter temporário, totalizando 70 professores; além da direção escolar, que assim, pode realizar um trabalho constante e ininterrupto.
O bairro e a COHAB
O colégio “Ruth Cabral” atende a comunidade tanto do bairro de Itaquera quanto os moradores da COHAB (Conjunto Habitacional). As “Cohabs” surgiram durante o regime militar numa tentativa de amenizar a questão habitacional já preocupante no início dos anos 80. Porém, observa-se que a única preocupação dos engenheiros da época foi aproveitar os espaços para construir o maior número de prédios possível, já que as áreas de lazer são pouquíssimas, quase inexistentes.
Itaquera teve, a partir dos anos 80, uma verdadeira explosão demográfica em virtude da construção da Cohab. Servindo literalmente de “bairro dormitório”, onde durante o dia os moradores se deslocam do bairro ao centro para trabalhar e depois retornam para suas casas e apartamentos.
Espaços de cultura e lazer são poucos, atualmente contamos com o Parque do Carmo (o mais antigo do bairro de Itaquera) e o SESC Itaquera, algumas bibliotecas públicas bastante deficientes, além de um pequeno shopping center, onde muitos para lá se dirigem, pois o cinema é mais barato em comparação aos demais situados em outras áreas da capital paulista.
O bairro de Itaquera possui um único centro de formação profissionalizante: a “Obra Social Dom Bosco”, que por ser um das poucas entidades gratuitas da zona leste acaba não conseguindo atender a demanda existente na região.
Nossos alunos
Em meio a essa realidade, poderíamos caracterizar nossa população estudantil como oriunda de famílias, cuja renda mensal está situada entre 2 a 4 salários mínimos. O salário mínimo no Brasil é de R$300,00 (trezentos reais), convertendo-o para a moeda americana, o valor passa a $120 (cento e vinte dólares). Com salário mínimo tão baixo, muitos alunos, especialmente do período noturno, necessitam trabalhar para ajudar na subsistência de suas famílias.
As atividades de lazer e cultura ficam restritas aos salões de baile, ao cinema, à participação das igrejas do bairro, ao passeio ao Parque do Carmo ou ao Sesc Itaquera. Teatro, exposições, mostras culturais raramente nossos alunos vão espontaneamente, exceto quando a própria escola promove esses eventos.
Quanto aos hábitos de leitura e escrita, observa-se o papel imprescindível e impreterível da escola para estimulá-los a tal prática, haja vista que parte das famílias dos discentes não cultiva o exercício da leitura. Conseqüentemente, os estudantes ao chegarem ao Ensino Médio apresentam enorme resistência para realizarem as atividades propostas pelo projeto de redação “Penso, logo escrevo”, porém com bastante paciência e determinação, valorizando a auto-estima de nossos alunos, conseguimos uma participação expressiva no projeto.
| 5º Série | 6º Série | 7º Série | 8º Série | Total | |
|---|---|---|---|---|---|
| Manhã | -- | -- | -- | 213 | 213 |
| Tarde | 264 | 248 | 168 | -- | 680 |
| Alunos | 893 |
| 1º Série | 2º Série | 3º Série | Total | |
|---|---|---|---|---|
| Manhã | 290 | 231 | 164 | 685 |
| Noite | 145 | 167 | 169 | 481 |
| Alunos | 1166 |
Problemas x Sonhos
Um aspecto que chama minha atenção enquanto educador é o fato de que muitos adolescentes e jovens estarem apresentando um desinteresse pelos estudos que chega a ser assustador. Dá a impressão de que a escola perdeu o seu valor, o seu papel, afinal surge a seguinte pergunta na mente de nossos alunos: “Para que estudar? Se há muitos advogados e engenheiros desempregados?”.
Associado ao desinteresse pelos estudos, observamos também, uma falta de perspectiva em relação ao futuro; é por essa razão que vemos pelos ruas de nosso bairro e até mesmo da própria Cohab, inúmeros jovens, em plena luz do dia, sem realizar nada, num verdadeiro ócio contínuo, algo extremamente preocupante, principalmente, porque parte de seu tempo deveriam estar envolvidos em atividades voltadas a sua formação pessoal, cultural e profissional. Muitos deles não tendo oportunidades para realizar cursos, acabam envolvidos com o vício (entorpecentes e álcool) ou até mesmo seduzido pelo tráfico de drogas.
Vê-se nesse contexto, a necessidade urgente de políticas públicas voltadas à juventude. Caso contrário, o futuro de nossos jovens será cada vez mais vinculado ao aumento da violência em nossa cidade e em nosso país.
Por outro lado, surge como um sinal de esperança um grupo significativo de jovens que encaram os estudos, o trabalho e o momento em que vivem como uma oportunidade para investirem em seu futuro e em seus sonhos.
Muitos desejam realizar um curso superior, terem autonomia, ajudarem suas famílias com a obtenção de um bom emprego. Sabem que a escola tem um papel importante nesse contexto e, que, sem ela, praticamente se torna difícil alcançar seus objetivos, o seu projeto de vida.
O projeto de redação torna-se relevante para nossos alunos, pois ao realizarem as atividades propostas, adquirem passo a passo a competência tanto como leitores quanto produtores de texto, ou seja, conseguem expressar de forma clara e objetiva aquilo que pensam sobre determinado assunto. Muitos já afirmaram que, finalmente, aprenderam a escrever uma redação, graças ao projeto “Penso, logo escrevo”.
A amizade como fonte de parcerias
Antes mesmo da idealização e execução do projeto de redação, a busca de parcerias sempre foi uma preocupação de minha parte. Preciso fazer um pequeno relato para que possam compreender bem como alcançamos tais contatos com organizações européias.
Quando adolescente, participei ativamente das atividades da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, ligada à Obra Social Dom Bosco, lá pude entrar em contato com diversos grupos de estrangeiros (que vinham conhecer o trabalho com crianças e jovens desenvolvido pelos padres salesianos em Itaquera). Endereços foram trocados, inúmeras cartas escritas, uma amizade de 14 anos já está consolidada com pessoas da Áustria, Alemanha e Itália.
Parte desses amigos participam de uma ONG (Organização Não-Governamental) chamada “Empezamos - Einsatz für EINE solidarische Welt”, que realiza intercâmbios para diversas partes do mundo em busca de um mundo mais humano, mais solidário.
Assim, em julho de 2002, fui convidado a ir à Itália para participar de um intercâmbio educacional e cultural coordenado por essa entidade e patrocinado pelo governo italiano. Durante um mês, estivemos em escolas do norte da Itália, participando de projetos de férias desenvolvidos pelas escolas italianas, além de visitar instituições que realizam trabalhos voluntários e solidários naquela região.
Tal experiência foi bastante enriquecedora, além de poder rever os amigos, consolidar a parceria, pudemos também realizar novos contatos. Dessa forma, em 2002, ao rever uma amiga e professora austríaca, Anna Riegler, uma nova parceria foi consolidada com a “Cruz Vermelha Estudantil da Áustria – ÖJRK”, que nos fez a primeira doação de $ 728 (setecentos e vinte e oito dólares) para a compra de livros didáticos de língua portuguesa para o Ensino Médio do período noturno da E.E. Profª Ruth Cabral Troncarelli.
Nossa escola se tornou uma das pouquíssimas escolas do estado e do país em que os alunos do Ensino Médio (noturno) têm a possibilidade de estudar sua língua materna com livros didáticos.
Em 2004, uma nova doação de foi feita para a compra de novos livros, foram comprados mais de 120 livros: dos quais 50 (livros didáticos para o Ensino Médio) e 70 (livros de literatura brasileira e portuguesa). Todo o acervo se encontra em sala de aula para que o aluno, ao conversar com o professor, tenha acesso imediato ao livro.
Portanto, o projeto de redação foi enormemente beneficiado com essa parceria, pois não é possível imaginar um trabalho feito para o desenvolvimento da produção textual se não houver estímulo à prática da leitura.
O projeto já foi encaminhado à Áustria para a aquisição de novos recursos, desta forma, será possível garantir a manutenção do projeto e a publicação dos textos produzidos pelos próprios alunos, entretanto, sentimos a necessidade de procurar parcerias aqui mesmo no Brasil, de modo que possamos juntar cada vez mais forças e apoio de novos parceiros em busca de uma educação de qualidade.
Em suma, seria bastante difícil trabalhar com o Projeto de Redação, caso nós não tivéssemos a possibilidade de realizar essas parcerias especiais: solidárias e fraternais. Todas frutos de uma grande amizade. Os versos bíblicos sintetizam muito bem o sentimento que tenho por essa amizade construída há mais de uma década: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro”.
Conhecendo o projeto
- Temas que envolvam um relato pessoal sobre um determinado aspecto da vida do educando, por exemplo: “O dia mais feliz da minha vida”. Queremos com tal composição, possibilitar ao nosso aluno a exposição de suas emoções e experiências de vida, tornando a prática da escrita um instrumento de registro da história pessoal;
- Assuntos ligados à ótica social e juvenil, problemas enfrentados pela sociedade e pelos jovens: “Drogas – coragem ou fraqueza?”. Desta forma, os estudantes ao redigirem já são estimulados a refletir sobre um tema em que analisarão as causas e conseqüências de um determinado fato tanto para a vida deles, quanto para suas famílias;
- Temas extraídos de vestibulares: “O dinheiro não compra tudo” - queremos propiciar aos nossos alunos o exercício de redigir um texto para o vestibular, haja vista que uma parcela dos estudantes deseja ingressar no ensino superior. A escola precisa capacitá-los não só para esse momento, mas qualquer situação em que seja necessária a exposição de um raciocínio coerente e lógico através da escrita;
- Garantir o domínio de, pelo menos, três modalidades de textos: a narração, a descrição e a dissertação. De tal forma que, ao ser solicitado o aluno saiba discorrer com tranqüilidade sobre o tema proposto e a modalidade de texto requerida.
A cada semana, os alunos apresentam os textos para o professor, o qual anota em seu diário a realização da atividade. Feitas as devidas anotações, passa-se a leitura dos textos, os alunos são motivados a lerem seus próprios textos em frente à turma; criando uma atmosfera nova em sala de aula, pois os alunos se tornam naquele momento sujeitos de sua própria atividade, surge muito interesse para ouvir aquilo que o colega pensou e conseguiu produzir.
Ao término das leituras, o professor faz um comentário, enfatizando aspectos relevantes apontados nos textos lidos, sempre procurando incentivar à prática da escrita e, tomando muito cuidado para não fazer um comentário muito ácido, de modo que evite “destruir” a produção do aluno. Não queremos que o aluno tenha medo de escrever, pelo contrário, queremos que demonstre o seu pensamento, mesmo que tal composição apresente um raciocínio não muito bem construído.
A reescrita
No final do bimestre, o aluno terá produzido por volta de 7 a 8 redações. Então, ele fará a escolha do texto mais bem redigido: aquela produção, cuja estrutura apresenta bons argumentos, encadeamento lógico das idéias, enfim um texto em que estejam presentes a coesão e a coerência, a linguagem clara e objetiva.
Ao fazer tal escolha, inicia-se uma etapa importante para a produção textual: a reescrita.
Nesse momento, o aluno fará a releitura do texto escolhido e poderá modificá-lo, reorganizando determinadas sentenças e partes, as quais considere inadequadas, e acrescentar outras idéias e frases, se assim achar conveniente.
Também poderá pedir a um colega de classe para que faça a leitura de sua redação e aponte aspectos que mereçam ser modificados.
Necessariamente, a atividade de reescrita será feita em sala de aula ou na biblioteca da escola, com a observação atenta do professor sobre a atividade que está em curso. O aluno entregará sua produção para uma cuidadosa correção, em que se observará toda a estrutura de construção do texto, além de chamar a atenção para as questões relativas à ortografia, pontuação, coesão/coerência, etc.
Adotou-se o critério de entregar apenas uma redação para a reescrita, pois a correção da mesma exige um longo trabalho de análise de texto (aproximadamente 200 redações), sendo assim, o professor poderá analisar com calma o trabalho feito pelo aluno sem haver um acúmulo de “montanhas de redações para corrigir”. O projeto precisa ser viável para que o professor possa desempenhar suas outras atribuições, afinal é preciso também lecionar a Gramática e a Literatura e, também, corrigir provas dessas respectivas áreas.
Futuramente, desejamos trazer inovações para o projeto com a introdução de novas modalidades de texto, especialmente as cartas, poemas, textos ficcionais/contos, e até mesmo reportagens; mas, por estarmos apenas no segundo ano de execução do projeto, queremos caminhar cuidadosamente, sem haver atropelos na capacitação dos alunos, afinal será preciso que o professor prepare aulas de como produzir um poema, um conto, enfim, como fazemos agora com as aulas de narração, descrição e dissertação.
A interação: aluno – texto – computador
Por volta de outubro de 2004, os alunos formaram grupos para a concretização do projeto de redação. Os alunos foram orientados para realizarem a leitura de todos os textos produzidos pela respectiva equipe.
Feita a leitura da primeira redação de cada membro do grupo, a própria equipe discutiu e realizou a escolha da melhor redação n°1; assim sucessivamente, até se chegar a última redação produzida no projeto. A única exigência imposta ao grupo foi a de que, obrigatoriamente, deveria constar, pelo menos, uma redação de cada componente daquele grupo. Porém, a equipe teve total liberdade para melhorar e modificar os textos por ela analisados.
Foram solicitados aos grupos que fizessem a digitação dos textos que eles mesmos selecionaram. Utilizassem os diversos recursos ilustrativos presentes no aplicativo “Word” ou em outros, de tal forma que tornassem seus textos convidativos à leitura.
Tais textos foram gravados em disquetes e, posteriormente, impressos para a finalização do projeto de redação, que ao reunir os mais 20 trabalhos apresentados, tornou-se um compêndio de 400 páginas, reunindo todos os trabalhos feitos pelos grupos. Para esse conjunto de trabalhos reunidos, demos o nome de coletânea.
A avaliação da coletânea
A coletânea tornou-se, portanto, o produto final realizado pelos grupos. Só quando reunimos todos os trabalhos é que conseguimos ter a dimensão que o projeto de redação pôde alcançar. Assim, além dos alunos se dedicarem à leitura e à escrita, puderam também vivenciar uma experiência de equipe, compartilhar conflitos e decisões. Aprenderem a fazer uso da sala de informática, não apenas para acessar a internet (como é comum em muitas escolas), mas empregar efetivamente os recursos que aquele ambiente dispunha para poder confeccionar seus trabalhos.
Quanto à avaliação dos trabalhos entregues, podemos afirmar que 90% obtiveram resultados considerados bons, muito bons e excelentes. É preciso deixar claro uma postura crítica do professor-organizador do projeto em relação aos trabalhos presentes na coletânea: os textos não sofreram a intervenção nem a correção ortográfica e estilística do professor, de tal forma que temos o real trabalho dos alunos ali exposto. O erro ortográfico, ou de qualquer outra natureza, se faz pequeno frente ao pensamento crítico, ao raciocínio que nossos alunos elaboraram nas diversas composições do projeto. O que se valorizou, portanto, toma-se como critério, é a visão crítica apontada, é o modo peculiar e particular desse jovem diante de uma determinada realidade. Nosso objetivo maior não é “maquiar redações” para que pareçam bonitas, mas demonstrar em que estágio efetivamente nossos alunos se encontram em relação ao aprendizado e ao domínio da língua escrita materna. Só assim, podemos tomar atitudes concretas para sanar as dificuldades apresentadas pelos nossos alunos.
Diagnóstico das competências: a avaliação do Saresp/2004.
Ao corrigirmos as redações do Saresp/2004, sentimos uma enorme alegria de não encontrarmos folhas com o seguinte recado: “Não sei fazer redação”. Para nossa satisfação, houve uma significativa evolução na qualidade dos textos produzidos pelos alunos. Também ocorreu diminuição de textos considerados ruins e insatisfatórios.
Percebemos que o aluno foi mais capacitado para realizar a prova do Saresp/2004 em relação aos anos anteriores. Assim, obtendo melhores resultados, conforme atestam os números da tabela abaixo:
| 2003 | 2004 | Resultado | |
|---|---|---|---|
| Manhã | 4,2 | 5,5 | 32% |
| Noite | 3,1 | 5,2 | 67% |
| 2003 | 2004 | Resultado | |
|---|---|---|---|
| Manhã | 5 | 6,5 | 30% |
| Noite | 3,9 | 5,4 | 38% |
| 2003 | 2004 | Resultado | |
|---|---|---|---|
| Manhã | 5,5 | 5,4 | 80% |
| Noite | 3,6 | 6,7 | 87% |
Com a implantação do projeto em 2004 na turma dos 3ºs anos-noite, observa-se que foi o grupo, cuja nota foi superior em relação às demais, superando, inclusive, turmas consideradas mais fortes e capacitadas como as do período matutino.
O que nos chama a atenção é justamente o crescimento de 87% em relação à nota média de 2003 para 2004, uma evolução que podemos considerar bastante expressiva, afinal conseguimos ultrapassar um estágio em que grande parte das redações era considerada insatisfatória e ruim; já em 2004, invertemos a situação, quadro abaixo apresenta o diagnóstico das produções da turma do 3º ano-noite:
| Insuficiente | 17 | 13,07% |
| Razoavel | 41 | 31,53% |
| Bom | 35 | 26,92% |
| Muito Bom | 37 | 28,46% |
| Nº de alunos | 130 |
Quanto aos critérios de correção propostos pelo Saresp/2004, segue um excerto extraído das orientações da CENP e da FDE: “...A redação foi avaliada por meio de competências referentes ao texto...dissertativo-argumentativo (no Ensino Médio). No processo de correção da redação pelos professores, atribuiu-se um conceito para cada competência , que variou entre muito bom (MB), bom (B), razoável (R) e insuficiente (I). Posteriormente, para cada um desses conceitos, foram atribuídos pesos, a saber: 10,0 (muito bom), 7,5 (bom), 5,0 (razoável) e 2,5 (insuficiente). Da somatória dos pontos atribuídos a cada uma das competências foi obtido um conceito global da competência escritora.”
A partir das orientações da CENP e da FDE, pudemos chegar à média aritmética de cada uma das turmas, já que a Secretária da Educação disponibilizou os conceitos de cada uma das turmas que participou do Saresp/2004. Coube ao professor, transformar conceitos em pesos, conforme apresentado acima e, assim, chegarmos a média final.
Sabemos, entretanto, que ainda temos muito trabalho à frente, convivemos com o aluno dia a dia, sentimos as inúmeras dificuldades que eles apresentam, e isto nos faz ter a convicção de que, apesar dos números serem bastante positivos, precisamos persistir nesse trabalho e buscar mais e novos recursos para que aprendizado do idioma materno seja um elemento de compreensão de si mesmo e do outro e a busca por uma interação maior com a sociedade e com o mundo em que o educando vive e convive.
Dificuldades X Perspectivas
Um dos pontos que senti mais dificuldade foi a sensibilização dos alunos para o trabalho com as redações. Muitos por não terem feito um constante exercício de produção textual durante sua formação no Ensino Fundamental e Médio, apresentavam uma enorme resistência para realizarem as composições. Porém, fomos explicando que o projeto de redação foi elaborado justamente para ajudá-los na expressão de seus pensamentos e de suas idéias, e que, escrever não deveria ser encarado como uma atividade chata, mas sim, um exercício prazeroso, que trará inúmeros benefícios para o próprio aluno.
Outro aspecto bastante complicado foi fazê-los levantar de seus lugares e se dirigirem à frente dos colegas de classe para lerem o texto que eles próprios produziram. A cada semana, eu os encorajava a enfrentarem esse desafio, pois nas futuras empresas em que trabalharão, provavelmente, eles poderão ser solicitados a encarar tal tarefa, assim, quando participam da atividade de leitura frente ao grupo, já é uma enorme oportunidade de aprendizado, pois vão aprendendo a controlar o nervosismo, a manterem uma postura frente ao público, e a ouvirem a própria voz que resulta da locução de seus textos.
Houve participações que emocionaram toda a sala, até mesmo o próprio professor, pela forma peculiar como era tratado e exposto o assunto daquela semana. Desta forma, transformamos a aula de Língua Portuguesa em algo vivo, construído a partir da interação real entre professor e alunos, da participação efetiva como meio de motivar o aprendizado da língua materna.
Portanto, é preciso acreditar na busca de uma nova didática capaz de tornar o ensino do idioma mais eficiente, produtivo e significativo não só para os alunos, mas também para os professores.
O que faria diferente...
Muitas vezes por termos inúmeras atribuições e tarefas a serem cumpridas, uma jornada dupla em escolas (trabalho na escola particular pela manhã e na escola pública à noite), faltou aquela atenção especial para determinados alunos que mereceriam mais tempo de nossa dedicação, casos em que os estudantes chegaram ao Ensino Médio com seriíssimos problemas de alfabetização e que não conseguiram expressar na escrita de forma eficiente o que pensam sobre si mesmos e sobre o mundo... Enfim, gostaria muito de poder trabalhar apenas na escola pública (se houvesse um salário igual ou superior ao que a escola particular paga aos seus professores. Para fazer uma analogia, a hora-aula da escola particular é cinco vezes mais que a da escola pública, ou seja, enquanto recebo R$5,00 reais na escola do Estado, na escola particular ganho R$25. Convertendo-se em dólares a hora-aula temos: $2 (na rede pública) e $10 (na rede particular) se, assim fosse, poderia me dedicar exclusivamente a escola pública, porém, enquanto Educação não for a verdadeira prioridade neste país, com a valorização real e efetiva do professorado, a condição desse profissional não mudará, e conseqüentemente, a qualidade do trabalho que ele oferece será afetada, mesmo assim, com todas as limitações que tal situação impõe, procurarei concentrar esforços para não perder de vista aqueles alunos que precisam de mais atenção de minha parte.
Agradecimento
Neste momento, quero agradecer a todos os alunos que participaram do projeto de redação “Penso, logo escrevo”. Durante o ano letivo de 2004, pude ter o prazer de vivenciar uma experiência maravilhosa, a qual só pôde ser concretizada, porque foi resultado de uma efetiva participação de nossos ex-alunos do 3º ano colegial e do 2º H. Não posso deixar de mencionar o apoio da direção e coordenação pedagógica da E.E. Profª Ruth Cabral Troncarelli, que confiou na viabilidade do projeto e, assim, colaborou para que o projeto ocorresse. Aos colegas professores, que sempre estiveram dispostos a ouvir sobre o projeto e a dar sugestões.
Também sou muitíssimo grato aos estudantes austríacos que, por meio da ÖJRK (Cruz Vermelha Estudantil da Áustria), vêm contribuindo para que tenhamos melhores recursos didáticos em nossas aulas de Língua Portuguesa ministradas no Ensino Médio noturno. Não posso me esquecer de duas amigas que colaboraram para a efetivação dessa parceria: Claudia Penn (tradutora do projeto para a Língua Alemã) e a Anna Riegler (a grande divulgadora junto a ÖJRK).
O projeto foi sendo construído a partir de sua aplicação e realização em sala de aula, porém preciso agradecer a profª Madza Ednir pelo carinho e atenção, pelas inúmeras dicas e sugestões dadas ao “Cogito ergo Scribo”, prestando uma verdadeira consultoria pedagógica e educacional, a qual culminou na redação mais elaborada do mesmo.
A todos, que colaboraram diretamente ou indiretamente, meu sincero agradecimento.
Muito obrigado.
Wagner Garcia Siqueira